Quebrando o Gelo com Augusto D. Boccia (São Rafael)

Quebrando o Gelo com Augusto- São Rafael

Há 40 nos na empresa, Augusto D. Boccia é casado, têm dois filhos, gosta de aeromodelismo e caminhadas, formado em Administração – Universidade Mackenzie, sempre atuou nas entidades do setor como ABRAVA e SINDRATAR, e vice-presidente do IBF – Instituto Brasileiro do Frio, Diretor do DEMPI – Departamento da Micro, Pequena e Média Indústria da FIESP e Diretor do CIESP – Guarulhos representando a região de Arujá.

 

História da São Rafael

Tudo começou em 1907 quando meu avô, imigrante italiano chegou ao Brasil. Na época, sua ocupação era mestre de ferreiro, mas logo começou a produzir carroças para transporte de cargas, produzindo inclusive carroças isotérmicas (isolada com palha de arroz), posteriormente e acompanhando o desenvolvimento industrial, passou para implementos rodoviários (carrocerias de madeira, furgões, semirreboques e etc.). Ao longo dos anos a empresa mudou e se especializou em implementos para transporte de cargas perecíveis e posteriormente câmaras frigorificas de estocagem, ligados à área de alimentação. Efetivamente a empresa passou a fazer parte da refrigeração quando partes importantes dos componentes eram apenas os importados. Entre 1966 e 1967 começamos a isolar os furgões com espuma rígida de poliuretano e na sequência a fabricação dos primeiros furgões de fibra de vidro equipados com sistemas de refrigeração. Em 1974 deu-se início a produção das primeiras câmaras frigorificas estacionárias, e desde então por meio do desenvolvimento temos aumentamos nossa participação no setor HAVC-R.

Atualmente nossa linha de produtos é composta de: câmaras frigoríficas modulares, resfriadores/congeladores rápidos “Blast Chillers /Freezers”, câmaras com portas expositoras, gabinetes refrigerados para armazenamento de lixo orgânico, câmaras para retardamento da massa de pão, walk-in coolers/freezers, reach-in coolers/freezers, step-in, sistemas de refrigeração, salas climatizadas e acessórios para câmaras frigoríficas.

Nosso fornecimento abrange desde a fase inicial de projeto que consiste no dimensionamento adequado do produto para cada aplicação até a sua total instalação e posteriores garantia e assistência técnica.

 

Como você vê à atuação do mercado de refrigeração

O momento não é adequado para uma análise de mercado otimista, mas com certeza é um dos setores que apresenta e apresentou um excelente desempenho nos últimos anos, basta observar o crescimento da construção civil, da indústria automobilística, do foodservice e muitos outros setores que utilizam o HAVC-R para dimensionar a potencialidade deste mercado. O importante é aprender a planejar em longo prazo para superarmos estes ciclos que o Brasil passa em termos políticos e econômicos. Sabendo planejar teremos a capacidade de administrar as dificuldades técnicas, fiscais, tributárias e também os erros de gestão, para que possamos dimensionar um pouco melhor os recursos nosso setor. Nos últimos 7 ou 8 anos, tivemos um bom desenvolvimento.

No Brasil ainda temos muito para avançar no desenvolvimento do mercado de refrigeração, pois sempre dispusemos de excelentes tecnologias, mas também das piores aplicações, que são as que oferecem apenas um preço baixo. Temos legislações, mas necessitam de atualizações e de maior rigor em sua aplicação. Temos que rever os estudos de nossos estoques reguladores, pois não podemos depender de um dia de greve do transporte. Basicamente consumimos o alimento que saiu da colheita, que foi transportado e vendido sem ser armazenado. Temos oportunidades para aumentar os volumes estocados, reduzir os custos de transporte e distribuição e reduzir os custos do consumo de energia. Observamos que o maior problema está relacionado ao investimento inicial e ao conhecimento que nosso setor precisa aprender a repassar aos seus clientes, para que estes tomem uma decisão técnica adequada e não apenas financeira.

Um exemplo que serve para entender o setor da refrigeração é analisar o segmento de ar-condicionado, que apresenta uma forte sazonalidade de vendas quando o calor aumenta e suas vendas batem recordes. As pessoas reagem ao calor que sentem, mas não reagem ao efeito sobre a sua alimentação, pois o mesmo calor estraga uma quantidade de alimentos incalculável e de perdas significativas, ou seja, o mesmo efeito observado no ar condicionado, não se observa nas vendas de sistemas de refrigeração. Pagamos por um alimento um preço incalculável, pois não estamos aplicando corretamente a refrigeração, ou seja, temos um mercado promissor e que necessita de atualizações em toda a cadeia do frio.

Como exemplo, temos dados que indicam que cerca de 30% a 40% da banana produzida no Brasil é perdida. O cuidado com o alimento começa no campo, na colheita, na embalagem, na conservação, transporte, distribuição no atacado, no varejo até chegar ao consumidor final, que também desperdiça uma grande quantidade.

 

Falando de substituição dos Hcfcs

O setor precisa ser apoiado técnica e financeiramente, para encararmos com seriedade as decisões que estão tomadas pelo governo brasileiro para o cumprimento dos protocolos de Kyoto e Montreal, relacionados ao controle de emissões dos gases que afetam a camada de ozônio e que contribuem para o efeito estufa. Nossos dados de consumo indicam que aproximadamente 75 % do gás vendido no Brasil, utilizado em refrigeração, são destinado para área de serviços, ou seja, este número sugere que usamos mais gases para reposição do que para a produção do equipamento novo. Nossos parques de equipamentos, gondolas, ilhas, câmaras e sistemas de refrigeração estão muito velho e ineficiente.

Falta planejamento! O Brasil têm importado toneladas de gás e destinado basicamente à reposição. Não seria mais prático fazer investimentos para repor equipamentos novos em longo prazo? Investir todo o recurso nesta ação? Faria bem para a humanidade e com certeza o retorno seria mais rápido, as metas mais precisas, com um equipamento novo você já determina o fluido correto.

 

O que você acha da tecnologia disponível para refrigeração?

Se você pegar o retrato do Brasil e analisar, é possível identificar a potência do país quando se fala em refrigeração.

Temos espaço para crescimento, para novas tecnologias, o desafio é fazer com que as pessoas planejem melhor. De um lado, temos um equipamento melhor, mas se do outro lado não tiver quem entenda o produto, toda a tecnologia disponível não está valendo nada. O comprador precisa saber as diferenças entre os produtos, não se pode tomar uma decisão apenas pelo preço. É preciso que se tenha conhecimento para efetuar uma compra.

Existem outros problemas, estes não apenas os ligados à tecnologia, pois faltam recursos adequados para o investimento. Precisamos olhar tudo que se necessita para se ter um bom projeto, tem que se buscar o máximo de informação para que se possa viabiliza-lo e não tomar decisões medianas.

 

Mão de obra

Vejo que muito tem se investido em capacitação de pessoas, na São Rafael quase todos os engenheiros contratados não conheciam a área de engenharia mecânica na refrigeração, primeiro passo é a integração com o que fazemos, também usamos como referência o curso do Senai de refrigeração e pós-graduação na FEI. Outras opções são os parceiros, tem empresas que fazem treinamento como é o caso da Heatcraft, o setor está formando pessoas, entidades como Abrava e Sindratar têm um braço na parte de capacitação. Existem empresas que participam ativamente do processo e as que não participam, daí vem o desconhecimento do que pode e deve ser a capacitação, se não tem, pode-se se pensar que em conjunto para se construir, faltam mais participações das empresas, para que se possam dimensionar as suas necessidades. As empresas deveriam manter um relacionamento, se tratam como inimigos, e esta filosofia tem que mudar, educação está aí disponível para o treinamento.

A São Rafael nunca foi escola, mas agora somos, fazemos treinamento, não só para nosso pessoal, mas, para o refrigerista do nosso cliente, tudo depende do envolvimento das pessoas.

 

Mensagem para o mercado

Em relação aos negócios, as empresas devem aprender a olhar ao seu lado, olhar para trás, para frente, as empresas não sabem como se relacionar como seus vizinhos, com o setor e com seus concorrentes, estamos cercados por pessoas que podem ser nossos parceiros!

Temos que nos preocupar em ter um pouco mais de responsabilidade. Acho engraçado que no Brasil ninguém erra, só os outros, é muito difícil trabalhar corretamente neste país. Eu diria para que as pessoas continuem acreditando, que continuem tentando…temos um mercado fantástico, temos que enxerga-lo de maneira positiva, trabalhar o país de uma maneira melhor, não defendo nenhum interesse de partido político, temos que reverter está situação. Nós temos que mudar este País, colocar gente séria e honesta para trabalhar nos governos..